segunda-feira, abril 16, 2007

De se Viver...

Era mesmo envaidecido o olhar daquele moço que buscava, já distante, uma explicação pra vida, pro sentido de existir. Era complexo e parecia sempre tender a algo inexplicável. O vem e vai de gente no mundo, o nascer e o morrer constante das pessoas e das coisas, as mudanças, a sociedade, as religiões, o complexo ato de amar. Fazia-se inquieto, muita das vezes perdido dentro e fora dos seus pensamentos, tinha sempre o olhar distraído numa rachadura no teto ou na televisão desligada que refletia a imagem da janela aberta e um passado em forma de pássaro nela a bater com o bico no vidro.
Era mesmo um questionador das coisas, das posições, das mudanças e gostava de ter-se quieto, muita das vezes, como se pudesse e quisesse apenas ouvir o som do mundo.
Não conseguia ter um normal decorrer da vida, dessa que passa em “brancas nuvens”, tinha sempre pensamentos, ainda que num caminhar simples pela rua, era sempre “metralhado” por suas próprias perguntas, e mal conseguia pensar na conta que vencia, no encontro marcado com a menina ou na vida da vizinha.
Todo o dia passava, a caminho do trabalho, em frente a um cemitério que dava pra frente da prefeitura de sua cidade, e por mais que visse a cena se repetindo na porta desse por várias vezes: famílias chorando, senhores, idosos, crianças, o carregar de uma vida expirada dentro de um retângulo de madeira, não conseguia se acostumar e sempre pensava em quem foi aquele,o que teve, o que fez, quem era, quais eram seus sonhos? Não pensara que aquele era um morto que voltaria, apenas, ao pó.
Era mesmo estranho esse moço que adorava discutir e pensar filosoficamente nas coisas da vida e não via aquele senhor mendigando como apenas um mendigo, propriamente dito, mas sim uma história de vida.
Era estranho abster-se das religiões para se questionar o sentido da vida, mas era assim que esse jovem fazia quase que todas as noites, deitado no chão, sem camisa – ele gostava de deitar assim - pensava no sentido de uma criança nascer e morrer 2 minutos depois por complicações, qual o motivo de um menino de 6 anos morrer sendo arrastado por um veículo roubado ou que lógica teria em uma menina, no intervalo de uma aula na faculdade, ser atingida por uma bala perdida e ter que viver, quase que, em estado vegetativo. Qual o sentido da vida, dessas vidas especificamente?
Era mesmo estranho a ele ver filmes em preto em branco, ou cenas antigas de contexto político, por exemplo, da década de 60, e observar todos aqueles na televisão falando,expondo suas idéias, fazendo parte de algum cunho histórico, algo marcante como a própria ditadura, e depois pensar..
- Quantos desse ai estão vivos hoje?
Chegar à conclusão, que só vivem hoje na memória de poucos, ou como disse Getúlio Vargas: - Saio da vida para entrar na história.
Enquanto, absorto em seus pensamentos e sobre o que ele faz de sua própria vida, a que ele mesmo serve nisso tudo, não podia deixar de lembrar daqueles que vivem a vida tranquilamente, como se não fossem morrer. Desses que vivem bem à beira do fútil, do sem valor, do sem conteúdo. Os vizinhos fofoqueiros, o pessoal do Big Brother, aqueles que estavam, definitivamente, preocupados, ainda que inconscientemente, com o efêmero, com o que é evanescente.Mas talvez estivessem certos, pois a vida, também, se mostrava nessa linha tênue do que se esvai e pode ser eterno e se dê por satisfeito por ainda existir. Essa tal de fé, essa mesma que move o mundo, não tem forma, nem gosto e nem é visível; apegue-se ao que não se pode provar e tente você ter, também, mais momentos felizes do que tristes, nesse curto espaço de tempo na terra poder sentir menos a dor das perdas constantes das coisas e das pessoas. Será da vida se acostumar?

5 Comentários:

Anonymous Priscila said...

E porque assim é a vida: ao passo que um vão entre o resgate e a reconstrução de si mesma, uma linha tênue entre o pleno e o efêmero.
Eis aí um relevante questionamento: Será da vida se acostumar, que seja, de si mesma?
Vida longa ao rapaz das catarses, da música, das frases extensas e questionamentos incessantes!
;)

ter abr 17, 02:11:00 PM  
Anonymous Pixo said...

Como sempre: simples e completo...

qua abr 18, 08:39:00 AM  
Blogger alessandra said...

Este comentário foi removido pelo autor.

sáb abr 21, 08:43:00 PM  
Blogger alessandra said...

Maravilhoso!!!!!!
Sensível,puro, peculiar....
Olhar contestador, crítico, porém com leveza.

sáb abr 21, 08:45:00 PM  
Blogger Sangue de Barata said...

ta maneiro cara... vc tem futuro =)
investe e produz mais textos
depois aparece lá no
http://sanguedbarata.blogspot.com/

qui abr 26, 04:14:00 PM  

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